quarta-feira, 15 de Março de 2006 4:35
by
Sergei
Franquin - Ideias negras
O humor, o sarcasmo e o absurdo das pequenas histórias de Franquin compõem um retrato pouco lisonjeiro da condição humana. Há livros que valem pelas ideias neles contidas. No caso de André Franquin, estas (as suas) eram muitas vezes negras, marcos na carreira de um autor que procurou sempre as mais diversas formulações. É o caso desta edição da Witloof, que publica “Ideias Negras” em formato integral, reunindo num único volume aquilo que antes se encontrava repartido em dois.
Após o sucesso comercial de séries como "Spirou" ou "Gaston Lagaffe", esta obra marca o regresso do belga ao panorama editorial português, ainda que aqui num registo pouco conhecido para muitos dos seus leitores habituais. Na sequência da celebração do “disparate puro” do irreverente Lagaffe — série que, pelo traço mais solto, prenuncia já “Ideias Negras” —, é a sua criação mais pessoal, permitindo descobrir outra faceta de um autor que sempre se pautou pelo humor irreverente.
Feita de parceria com o argumentista Yvan Delporte (isto para além de outros “ideólogos”, como Luc Degotte e Gotlib, autor da genial criação Gai Luron), “Ideias Negras” tem início em Dezembro de 1976 num dos suplementos autónomos da revista “Spirou”, “Le Trombone Illustré”, transitando mais tarde, já na década de 80, para a revista “Fluide Glacial”. A sua publicação em álbum data de 1983 mas o atraso da sua publicação em Portugal não lhe retirou pertinência nem actualidade — até pelo tema em questão, em que se apresenta a realidade sob o seu lado mais incongruente. É, indubitavelmente, uma obra por onde se insinua um humor corrosivo que fustiga tudo e todos — só ele conjugaria marcas tão distintas para sublinhar o cómico em confronto com a irrisão do absurdo e do escatológico. É o caso, a título de exemplo, do “gag” de abertura, em que mostra um japonês a praticar “hara-kiri” e a dizer sarcasticamente que as suas vísceras estão cancerígenas...
Vistas no seu conjunto, todas as silhuetas destas pequenas histórias a preto e branco — cobertas muitas vezes de estiletes, de pêlos ou de vísceras a explodir — não deixam de expor também qualquer coisa de angustiante e de vertiginoso. Mas, ao que se sabe, era mais do que isso: essa veia destrutiva, com que Franquin tantas vezes brinca para fazer surgir as formas mais aterradoras de realidade, foi também sinal da depressão com que o autor conviveu durante muito tempo.
A contundência das suas observações já vinham de trás. Em “Chauchemarrant”, por exemplo, série de episódicos desenhos que faz a partir de 1971 para diversas publicações, deixa já à vista uma galeria de monstros disformes. Mas é em “Ideias Negras” que estes vão tomar formas ainda mais disfuncionais, em associação com o riso, literalmente submerso em bílis negra — também patente, aliás, nas célebres assinaturas que complementam cada “gag”.
Talvez tudo isto fosse um aviso do que estava para vir. No prefácio deste livro, assinado por Gotlib, fica inscrito que Franquin fitou certo dia um olho a planar no céu de Bruxelas. Desde então, acrescenta Gotlib, este passou a dilacerar “o papel como que com golpes de punhal”. Que assim tenha sido ou não, o facto é que a obra parte de uma premissa simples: até que ponto pode o homem levar a estupidez? No caso presente, o mundo — o nosso, aqui nas suas verdadeiras cores, o preto e branco — passa a ver visto como o pior dos pesadelos. É uma espécie de negativo da existência, onde qualquer que seja a forma que tomem as criaturas — os odiados militares (que sempre cobriu de ridículo, mesmo nas aventuras de Spirou), toureiros, defensores da pena de morte ou padres —, quase todas saem trucidadas. É por essa razão que, mais do que um manual de situações absurdas, “Ideias Negras” fica também como um desopilante delírio sobre os limites da consciência, um manifesto corrosivo a oscilar entre Beckett e o riso ácido de publicações como “Hara-Kiri” ou “L’Echo de Savannes” (sob os auspícios de Gotlib e Mandryka).
No final, vê-se um abutre batendo as asas atrás de uma personagem, rasgando a noite. Poderia ser interpretada como uma metáfora da ausência de limites para a expressão do que é “politicamente correcto” ou, se preferirem, como mais uma “gaffe” à maneira de Gaston; uma forma de prolongar a sabotagem.
"Ideias Negras"
AUTOR: Franquin
EDITOR: Edições Witloof
75 págs., 12.74 euros
Ler também:
A Biografia de Andre Franquin