Nos últimos tempos, a imprensa mundial e a opinião pública foram invadidas por uma polémica que, segundo muitos, teve como origem a publicação de uns cartoons.

Depois das fogueiras da inquisição e de outras formas de censura, que marcaram outros períodos da nossa História, estava longe de imaginar que hoje, a arte e o humor pudessem estar na base de um conflito como o que marca a actualidade mundial.

Apelidada por alguns de “pedaços menores de arte”, a imagem impressa tem desempenhado, ao longo dos tempos, um importante papel social, dada a sua reconhecida capacidade de penetração no imaginário popular.

Através de uma linguagem simples e directa, a imagem, e muito particularmente a Caricatura ou Cartoon, conseguem que uma determinada mensagem atinja o receptor sem a necessidade de grandes análises para o seu entendimento.

Contudo, a sua principal característica - o poder de crítica, transmitida por meio do humor e da ironia tem sido muitas vezes utilizada como uma arma mordaz e sarcástica, que adquire principal evidência quando este potencial expressivo provoca acesas discussões sociais e políticas.

A sua carga de ironia violenta e irreverente, muitas vezes exagerada e desenfreada, a aponto de atingir duramente o seu objecto, acaba muitas vezes por ridicularizar membros do poder e outras personalidades, tornando-os alvo de chacota e riso generalizado, podendo mesmo chegar à ridicularização de uma cultura inteira.

Foi com este argumento e com o pretexto da publicação num jornal dinamarquês de uma série de cartoons, em que aparecia a figura do profeta Maomé, que um grupo de radicais islâmicos incendiou o mundo muçulmano e trouxe para a opinião pública mundial uma revolta sem precedentes com consequências, para já, imprevisíveis.

Apesar de considerar que devemos respeitar todas as crenças religiosas, desde que estas sejam merecedoras desse respeito, também vejo com naturalidade que as possamos criticar, principalmente quando ao abrigo de um pretenso fervor religioso, alguém se permite cometer os maiores abusos, deturpando totalmente os valores que certamente sustentam essa religião.

Sou um grande admirador da civilização árabe, da arte islâmica e respeito muito o legado histórico indelével que esta deixou na nossa região, e que ainda hoje nos marca.

Não compreendo, porém, como um punhado de extremistas, invocando pretensos valores morais e culturais, pretendam por em causa toda uma construção democrática de centenas de anos, curiosamente os mesmos que ainda separam o ocidente do mundo muçulmano.

Que por detrás desses valores que agora defendem se escondam a tortura, o apedrejamento e a rejeição de quem, mesmo comungando da mesma religião, pensa de maneira diferente da sua.

Que os mesmos que humilham mulheres e homens e praticam a excisão feminina, queiram agora fazer crer que, por causa de umas infelizes caricaturas, se revoltam com um, já velho, ódio contra tudo o que é ocidental.

Considero esta polémica gerada em torno dos cartoons, uma verdadeira caricatura da sociedade ocidental, que assustada por um grupo de radicais islâmicos, procura através de desculpas, discussões e discursos políticos patéticos apresentar como causas, a imprensa, a liberdade de expressão ou qualquer outro álibi politicamente correcto para esconder um problema muito mais complexo – o medo deste islamismo radical, que atenta contra os nossos valores e os nossos líderes, que se faz explodir em comboios e espalha no ar um assustador pânico que ainda continua muito presente na memória dos europeus.

Permitir esta submissão a um grupo extremista com pensamentos medievais, que não representa a maioria dos muçulmanos, é abdicar de uma conquista da sociedade ocidental, assente em valores como a liberdade, democracia e tolerância próprias de um mundo pluralista e intelectualmente desenvolvido.

Querer que todos os não muçulmanos se submetam às proibições do Corão, seria o mesmo que as comunidades Hindus, que não comem carne de vaca, se revoltassem contra outros povos que o fazem. A situação seria, igualmente ridícula.

Apesar de tudo, esta polémica levantou algumas questões que não devemos descurar. O enorme fosso que nos separa do mundo islâmico, e a necessidade de promover um maior diálogo que conduza à tolerância e compreensão entre estas e outras comunidades.

A influência do cartoon enquanto barómetro da consciência democrática. A força e influência da imagem, a ponto de pôr em causa a liberdade de uma democracia, o que evidencia a importância e responsabilidade dos seus responsáveis em saber gerir e procurar o equilíbrio entre a sua sensibilidade, o bom senso, a oportunidade e a liberdade de expressão. Mais importante do que a liberdade de expressão é o uso que se faz dessa liberdade.

Artigo: Rui André - Fonte: Barlavento