sábado, 25 de Março de 2006 4:41
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Sergei
António, cartoonista do mundo
António Moreira Antunes nasceu a 12 de Abril de 1953 em Vila Franca de Xira. Iniciou a sua formação artística na Escola António Arroio, em Lisboa, e frequentou seguidamente a Escola Superior de Belas Artes. A sua formação proporcionou-lhe uma ampla variedade de escolhas tendo o artista optado pela comunicação de massas, que sempre o havia fascinado, aos 21 anos.
Iniciou então a sua brilhante carreira no dia 16 de Março de 1974, coincidindo com o golpe das Caldas, com um desenho simbólico - que viria a ser premonitório da revolução próxima - incluído na edição desse dia do jornal "República". António Antunes dá os primeiros passos no mundo da comunicação social "por brincadeira" dado a sua área de actuação estar bastante limitada pela acção do Estado Novo.
Depois da queda do Regime, após breves períodos no "Diário de Notícias", "A Capital", "A Vida Mundial" e "O Jornal", António inicia a sua participação no semanário Expresso em Dezembro, a qual mantém até à data. Quase um ano depois nasce "Kafarnaum", uma polémica banda desenhada cujas cem tiras viriam a ser incluídas no primeiro livro do cartoonista.
A prolífica carreira do artista português não passa despercebida à crítica internacional e a sua obra é mostrada em exposições internacionais em cidades como Bona, Osnabruck, Dusseldorf, Wiesbaden, Macau, Rio de Janeiro; além do reconhecimento nacional que cedo obteve, acompanhado de exposições em Lisboa, Estoril e Porto.
Exemplo da apreciação positiva feita pela crítica internacional é a atribuição do Grande Prémio no XX Salão Internacional de Cartoon em Montreal, em 1983, a um pastiche da invasão israelita do Líbano de sua autoria em que a imagem original de uma fotografia chocante da II Guerra Mundial mostrando mulheres e crianças judias sendo empurradas para Auschwittz por soldados *** é transformada numa incisiva crítica à invasão, colocando soldados israelitas em lugar dos *** e libaneses em lugar dos judeus. A polémica gerada por esse pastiche foi das mais intensas que nasceram em torno da obra de António.
Após a atribuição do Grande Prémio, o artista vê as suas obras serem assiduamente divulgadas pela "Cartoonists & Writers Syndicate", uma reconhecida agência internacional no seu catálogo "Views of the World". Além dessa publicação dos trabalhos de António, foram editados vários livros reunindo grande parte da sua produção artística.
Além de cartoons e caricaturas, António realizou iniciativas como a produção de peças de cerâmica representando figuras da actualidade política nacional e de baralhos de cartas de jogar com a mesma temática, nos anos 80.
A formação do seu próprio estilo partiu de bases muito fortes que recolheu na obra de Brad Holand e de David Levine. A partir daí nasceu um estilo muito próprio e de traços muito marcados e com grande originalidade. A caricatura foi de início a faceta principal dos trabalhos de António; seguidamente adveio uma fase de cartoon, unindo a mensagem escrita às imagens; ultimamente recorre mais frequentemente a uma forma que diz ter mais a ver consigo, usando metáforas e símbolos.
O carácter incisivo muito próprio do artista fez com que, a espaços, os seus trabalhos causassem discussões acesas e motivassem polémicas desde os anos 70, originando mesmo processos judiciais que no entanto não tiveram provimento. A mais recente e grave polémica foi porventura a causada pela publicação do Preservativo Papal, um cartoon datado de 1992 representando João Paulo II com um preservativo pendendo do nariz. O cartoon teve repercussões a nível mundial, quer com manifestações de condenação veemente, quer com outras de solidariedade para com o artista.
Disse o artista acerca da sua obra: "- O meu discurso evoluiu e tornei-me mais sintético, larguei a palavra e portanto é um discurso mais difícil. Eu acho que é um desafio mais difícil, tentar comunicar sem palavras. Quando as coisa são bem conseguidas, é mais gratificante, mais universal, pode até ser mais efémero, porque é sinal que se encontrou mesmo em relação a um acontecimento preciso, uma forma, uma abordagem que, de alguma forma, transcende o próprio acontecimento, já que ele só fica com símbolos. Isto tem os seus custos do ponto de vista narrativo. É mais difícil contar histórias desta maneira mas é mais aliciante para mim. Isto não é regra porque eu acho que cada autor, quer seja de escrita ou desenho, vai à procura do fato que melhor lhe assenta. Eu sou melhor a fazer símbolos e, naturalmente, conforme fui evoluindo fui-me aproximando de uma coisa que tem mais a ver comigo e me dá mais gosto. É um desafio mais complexo. Estou a correr por gosto."
Esta visão da sua obra e da sua arte, um carácter de inconformismo vivo e crítica mordaz, uma enorme energia e um talento incontestado criaram aquele que é porventura o melhor caricaturista e cartoonista político nacional da actualidade que alia um humor subtil às suas criações.