Poucos autores terão conseguido construir um universo tão consistente e original a partir de tão poucos traços. As personagens de Mordillo são seres pequeninos, redondos e brancos, com narizes gigantescos, e que raramente pronunciam uma palavra. No entanto, a mudez e o despojamento gráfico apenas acentuam a personalidade dos pequenos gags do autor argentino, sem dúvida um dos nomes mais populares do cartoon vai para mais de 30 anos. De uma penada, a Booktree promoveu o regresso das suas obras às livrarias, com a publicação de cinco pequenos álbuns: quatro Guias (do Amor, dos Apaixonados, dos Animais e do Futebol) e uma edição de luxo intitulada Juntos para Sempre!.
Guillermo Mordillo é um autor veterano, nascido em Buenos Aires em 1932, tendo exercido actividade nos mais diversos domínios, com destaque para a publicidade e para a animação. Da publicidade terá retido a capacidade de síntese e de produzir a máxima informação no mais curto espaço de tempo; da animação a expressividade das suas personagens e a universalidade das situações - Mordillo não necessita de traduções para ser compreendido em qualquer parte do mundo, dada a simplicidade dos códigos a que recorre.
Esse é, aliás, o seu segredo: a forma como consegue cativar os seus leitores com uma única ilustração. As pranchas de Mordillo têm sempre o mesmo tamanho e elementos gráficos e temáticas recorrentes: os bonequinhos brancos, as girafas, os elefantes, as bolas de futebol, as ilhas, as montanhas, os prédios. Com uma dúzia de objectos deste género - não serão muito mais do que isso, e esta é a razão por que é tão fácil organizar o seu trabalho em álbuns temáticos - ele é capaz de produzir um número infinito de situações, umas mais inspiradas do que outras, mas mantendo sempre um nível muito alto de humor.
Alguns dos álbuns de Mordillo publicados pela Meribérica/Liber na década passada (oito títulos, alguns deles também temáticos) ainda podem hoje ser encontrados nalgumas livrarias, mas as novas edições da Booktree, embora em formato mais reduzido (perde-se alguma coisa em riqueza visual mas ganha-se outra tanta em comodidade de leitura), terão capacidade para atingir um público mais vasto, até sem ligações à banda desenhada. É verdade que muitas das ilustrações presentes nos cinco livros já se encontrava nos trabalhos anteriores, mas a estabilidade do traço de Mordillo e a eterna juventude das pranchas permite recombiná-las à vontade do freguês. Aos 70 anos, o argentino já não nos surpreenderá, mas a sua obra marca o imaginário de várias gerações. Quantos podem dizer o mesmo?
Texto: João Miguel Tavares - Diário de Notícias