A apetência do cinema pela BD não é de hoje e não tem ficado apenas pelos super-heróis. Em França, alguns dos maiores sucessos do cinema contemporâneo são adaptações dos quadradinhos e "Astérix e os Vikings", que hoje estreia, é mais um exemplo, justificando plenamente os 22 milhões de euros gastos em quatro anos de produção, que ocuparam cerca de 500 pessoase mais de 100 mil desenhos. Tanto Uderzo Anne Goscinny (filha de René), que acompanharam de perto o processo, se declararam satisfeitos com a fidelidade do filme à BD.

Se Astérix já foi levado ao grande ecrã uma dezena de vezes, incluindo os dois filmes com actores de carne e osso (o terceiro está em preparação), esta será a primeira animação que faz total justiça ao herói de Goscinny e Uderzo. Não tanto no que toca aos argumentos, de uma maneira geral transposição fiel dos enredos das aventuras em papel - "Os doze trabalhos de Astérix", única história criada para cinema, é a excepção -, mas antes pela falta de acção, dinâmica e ritmo , um dos pontos fortes das aventuras do pequeno guerreiro gaulês, que as versões animadas nunca tinham conseguido transmitir. A conjugação de técnicas tradicionais com as tecnologias informáticas permitiu-o agora e o filme apresenta-se como uma bela adaptação (livre q.b.) do álbum original.

"Astérix e os Normandos", o álbum de BD, data de 1966 e na época, Goscinny decidiu explorar o filão vicking, "que começavam a estar na moda", lembra Uderzo na "Lire - Hors-serie Astérix". A história desenvolve-se em três vertentes a invasão dos nórdicos, que queriam conhecer o medo que, acreditavam - literalmente - lhes daria asas; a presença entre os gauleses, para se tornar um verdadeiro guerreiro, do sobrinho do chefe, um jovem imberbe, "com quem, de certa maneira, o Maio de 68 desembarca na aldeia gaulesa, antes do tempo"; e o co-protagonismo do bardo, farto da ignorância artística dos seus concidadãos, mas que acaba por ser "quem faz medo aos Normandos e leva os gauleses ao triunfo". A isto há que acrescentar "que por uma vez os romanos não são os maus da história e chegam a dar pena" pois apanham tabefes a dobrar, de gauleses e normandos, e que o traço de Uderzo se apresenta, pela primeira vez, em todo o seu esplendor.

F. Cleto e Pina (Jornal de Notícias)