A importância das minorias, o seu reconhecimento e a tentativa de as captar são uma realidade incontornável na sociedade norte-americana. Por isso, não surpreende que as principais editoras de comics de super-heróis estejam atentas ao fenómeno e tentem também alicerçar nelas o crescimento recente de 25% do sector, devido principalmente ao êxito dos filmes protagonizados pelo Homem-Aranha, X-Men, Batman ou Quarteto Fantástico. Esta é a razão pela qual, na Marvel, Luke Cage, um negro tem uma relevância cada vez maior no seio dos Novos Vingadores, ou na rival DC Comics, o novo Besouro Azul é um adolescente mexicano - latino - com poderes místicos.
O exemplo mais recente surge agora na maxi-série semanal "52", que conta um ano (52 semanas, daí o seu título) no Universo DC, sem as suas principais referências - Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha - assinada por Grant Morrison, Greg Rucka, Mark Waid, Keith Giffen ou Dan Jurgens, entre outros, que verá nascer uma dezena de super-seres "chineses e uma nova Batwoman" lésbica!
Claro que nestes casos surge sempre a questão se se trata de um simples golpe de marketing ou se haverá realmente uma tentativa de aproximar os super-heróis da realidade da sociedade actual. José Abrantes, autor de BD, não acredita "na sinceridade artística dessas políticas!", mas, enquanto autor que cria para o público infanto-juvenil, tenta "por vezes sensibilizar no que se refere a estas questões.".
Daniel Maia, que desenha para o mercado norte-americano, acredita "que devido à crescente globalização e ao mais rápido amadurecimento dos jovens, a BD precise de novos arquétipos para criar uma relação com estes", vendo "esta nova orientação como algo positivo, pois não só possibilita histórias diferentes, mais frescas, mas também pela qualidade educativa que estas poderão ter". E embora nunca o tenha feito, acha "que se deve trabalhar sobre essas problemáticas, desde que não se "arranhe" apenas a superfície da questão".
Já José Carlos Fernandes, hoje o mais reconhecido e internacional dos autores portugueses de quadradinhos, sarcástico, descobre "que a Marvel e a DC, após décadas de olhos fitos exclusivamente no vil metal, foram iluminados por uma luz benfazeja e agora só querem contribuir para a felicidade e harmonia de todos os povos, etnias e orientações sexuais"!
Doutro ponto de vista, Pedro Silva, gerente da loja BDMania e editor da Vitamnia BD, lembra que "este tipo de manobra tem sido comum nos últimos anos", embora considere "que a repercussão em termos de vendas será mínima". Mas destaca que "a manobra tem servido para obter espaço nos media para um género normalmente ignorado. Além disso, serve para ir "lavando a cara" das respectivas editoras junto dos grupos de pressão. Afinal, se há sistemas de quotas de actores no Cinema e TV, é normal que a BD também seja objecto de algum escrutínio".
São nada mais nada menos do que dez, os super-heróis chineses que farão a sua aparição no universo DC no decorrer de "52". Conhecidos como "The Great Ten" ("Os dez grandes"), foram imaginados por Grant Morrison e são patrocinados pelo Governo da China, baseando-se os seus poderes em conceitos históricos e culturais daquele país. Entre eles contam-se o Arqueiro Celestial, a Raposa Fantasma Assassina, cuja missão é matar os homens maus, a Mãe dos Campeões, que pode dar à luz 25 super-soldados, de três em três dias, o Médico Perfeito, que usa o som para curar doenças, entre as quais o cancro, os Sete Irmãos Mortíferos, um lutador marcial que pode dividir-se em sete, ou o Guardião Vermelho Socialista, um ser radioactivo, confinado a uma armadura, que usa o poder solar para promover a revolução cultural!
A maior novidade de "52", revelada no insuspeito "New York Times", será o regresso da Batwoman, 50 anos após a sua criação e quase 30 após a sua morte. Não tanto pela sua "ressurreição", normal nos universos Marvel e DC, mas porque a nova Kathy Kane, além de ser uma socialite rica e linda, será também lésbica. A estreia será em Julho, com o novo uniforme concebido por Alex Ross. Com bastante repercussão na Comunicação Social, a novidade tem despertado reacções opostas na comunidade gay, dividida entre a satisfação de a questão "ser falada" e a convicção de que "tudo não passará de um fait-divers". A deitar água na fervura, Dan Didio, o editor- executivo da DC, afirmou que "a sexualidade da Batwoman não é a vertente principal do seu carácter, é apenas mais um aspecto da sua personalidade, que a ajuda a fazer as suas escolhas, como combater o crime em Gotham", pedindo que "leiam a história antes de a julgarem".
Se este não é o primeiro caso de um super-herói homossexual, nunca tal tinha acontecido com uma personagem com a visibilidade da Batwoman. O primeiro caso referenciado é o de Estrela Polar, um dos membros da Tropa Alfa, da Marvel, criada por John Byrne, nos anos 80. O caso mais famoso é o da dupla Apolo e Meia-Noite, cópias distorcidas de Batman e Super-Homem, integrantes de The Authority, uma série que abordava temas polémicos e adultos. Discreto de início, o caso foi sendo assumido, o que levou várias entidades a acusá-la de "influenciar de forma errada a mente dos jovens, com modelos de comportamento que podem causar confusão e enfraquecer a moral católica" e a ser premiada pela Gay & *** Alliance Against Defamation como a melhor revista de BD de 2000, por defender" a tolerância e a aceitação de modos de vida alternativos".
F. Cleto e Pina - Jornal de Notícias