Elásticos, lençóis, toques de calcanhar imprevisíveis... Mas tem uma coisa na qual Ronaldinho Gaúcho não é nada original: ele não é o primeiro portador da camisa 10 na história do futebol, nem será o último. Pelé, Rivelino, Jairzinho, Rivaldo, Zico, Dirceu Lopes e Tostão, entre outros, integram a lista de craques que fizeram do dez mais que um código de identificação de jogadores que atuam avante; alçaram o numeral a tatuagem do gênio, a auréola de pés singulares, a mito, enfim. E é sobre os portadores desse modelito, que não cai tão bem em qualquer um, que se debruça a exposição Camisa 10, em cartaz no Sesc Interlagos (av. Manuel Alves Soares, 1.100, São Paulo. Tel.: 5662-9500. De quarta a domingo e feriados, das 10h às 17h. Entrada franca).

Mostra de caricaturas, é formada por 20 obras (displays em tamanho natural) que retratam jogadores designados para tal responsabilidade e que corresponderam em campo – porque, cá entre nós, não falta perna-de-pau empenhado em transportar o zero para a esquerda da camisa. Entre os homenageados, Rivelino, Rivaldo, Jairzinho e, evidentemente, Pelé, o 10 dos 10. Entre os caricaturistas, Paffaro, Baptistão, Cárcamo e Fernandes, ilustrador do Diário com vasto rosário de premiações.

Apesar de palmeirense, não foi Ademir da Guia o camisa 10 eleito por Fernandes para representá-lo no Sesc Interlagos. Também poderiam ser Rivaldo e Pelé, camisas 10 já caricaturizados pelo ilustrador que, por sua vez, queria algo novo, inédito, incomum. Escolheu então, a partir de uma lista premeditada pela organização da mostra, Jairzinho, o Furacão da Seleção tricampeã de 1970 e camisa 10 do Botafogo. Por dois motivos.

Um deles, claro, a performance nos gramados, que na Copa de 70 (quando Fernandes contabilizava 11 anos) ajudou a acabar com o monopólio de atenções de Pelé. A outra razão que justifica a escolha de Jairzinho é essencialmente artística.

“Queria uma coisa que fugisse do óbvio. Desenhar um Ronaldinho Gaúcho é fácil, todo mundo já fez. São dois dentões, um cabelão e pronto”, diz Fernandes sobre a escolha. “Eu queria um desafio”. E bota desafio nisso. Fernandes explica que, apesar da alta voltagem que Jairzinho estabeleceu no campo, não é um modelo de fisionomia tão expressiva quanto o bigodudo Rivelino, por exemplo, e que facilite a vida do caricaturista. A chave para chegar à essência fisionômica de Jairzinho foram as sobrancelhas. O resto é história; ilustrada, diga-se.

Referência bibliográfica – Outro atestado de que o 10 excede expectativas táticas e/ou numéricas é o livro A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 194 págs., R$ 34,90), dos autores André Ribeiro e Vladir Lemos. No volume, a dupla analisa as carreiras de portadores da peça ao longo da história, nos períodos a.P. e d.P. (antes de Pelé e depois de Pelé). E ignoram limites nacionais, ao detalhar ascensões e quedas de jogadores como o húngaro Puskas, os argentinos Di Stéfano e Maradona, os franceses Platini e Zidane, o inglês Bobby Charlton, o português Eusébio e os holandeses Cruyff e Gullit. Ancestrais de um mesmo camisa 10 que a partir desta terça na Alemanha, com seus dentões e cabelão, pode dar motivos para reivindicar um epílogo só para si.

Cássio Gomes Neves
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