A eficiência histórica que uma caricatura ou uma charge possam alcançar tem relação direta com o senso de independência de seu autor. O desenhista que apenas se curva aos clamores e rumores do seu tempo não adquire relevância. Os que se chocam contra sua época e suas unanimidades geralmente vivem para contar outras histórias. Essa força é possível de ser observada em toda a linha do tempo da ação dos caricaturistas no Brasil, do pioneiro Araújo Porto-Alegre (1806-1879) a iconoclastas como Chico e Paulo Caruso, Angeli, Glauco, Loredano.

No livro 'Piracicaba, 30 Anos de Humor' (Imprensa Oficial), que ilustra boa parte da evolução dos mestres de nossa época, há um cartum que demonstra bem a tese: Chico Caruso, de São Paulo, em plena ditadura militar, levou o primeiro prêmio com um cartum no qual dois agentes da repressão prendem um palhaço no momento de seu show, no picadeiro, deixando a platéia circunspecta, atônita.

Segundo escreveu Luis Fernando Veríssimo, o Salão de Piracicaba, que foi lançado em pleno regime militar, sempre juntou gente como Millôr, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Zélio. 'Barricada? Resistência? Válvula de escape? Travessura heróica? O fato é que desde os primeiros salões lá estavam eles, em Piracicaba', disse. 'Todos levados pelo instinto, e pela necessidade, da outra coisa. A ditadura acabou, o salão cresceu e a outra coisa hoje é outra coisa.'

De fato, aquela geração era tão talentosa que sobreviveu até a morte do inimigo, eternizando seu trabalho tanto na doença do regime de exceção quanto na saúde democrática. Não é por acaso que um dos mais maltratados modelos dos caricaturistas no governo militar, o economista e deputado Delfim Netto, tenha também se tornado um voraz colecionador das próprias caricaturas, que ilustram seu escritório no Pacaembu.

'A caricatura, ao contrário do que parece, é a arte de revelar não só a cara, mas o caráter das pessoas; não o que está evidente, mas o detalhe que, de tanto ver, não se percebia', disse o escritor e jornalista Zuenir Ventura. 'Quando uma charge é particularmente inspirada, tem um peso extraordinário, fala mais do que mil palavras', diz o livreiro e colecionador Pedro Corrêa do Lago, que lançou, em 2001, primoroso catálogo com parte de sua coleção de desenhos, 'Caricaturistas Brasileiros' (Sextante Arte).

O alcance artístico de uma caricatura ou uma charge só é definido com um distanciamento histórico, mas é fácil perceber quando um autor enxerga muito além do seu tempo. O artista José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos (1884-1950), por exemplo: a excelência de sua arte sempre foi tão evidente que José Lins do Rego, certa vez, escreveu que seu desenho estava para a caricatura brasileira assim como Villa-Lobos para a música e Machado de Assis para a literatura.

Do topete de Itamar Franco à barba cerrada de Lula, dos dentes de Fernando Henrique à cara de raposa de Armínio Fraga: de tudo isso, sobra a arte, muito maior do que duas eleições ou pacotes econômicos.

Jotabê Medeiros - São Paulo
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