Francisco A. Marcatti, que nunca tinha lido Eça, quis desenhar "A Relíquia" assim que leu um resumo.

O romance "A Relíquia", de Eça de Queiroz, está a ser adaptado em banda desenhada pelo autor brasileiro Marcatti, estando o lançamento do livro (que terá mais de 200 páginas), pela Conrad Editora, previsto para Março de 2007.

"Há algum tempo que pensava adaptar uma obra literária para quadradinhos", explica Marcatti, "os meus editores incentivaram-me e sugeriram "A Relíquia". Jamais teria pensado num autor como Eça de Queiroz por focar sempre o meu trabalho na actualidade. Mas comecei por ler um resumo e, mesmo antes de o terminar, já me tinha decidido. Hoje lamento nunca ter lido uma obra dele".

Em relação ao original, "preferi manter apenas a estrutura e a condução da história e procurei usar os longos trechos narrativos do livro como construção de perfis de personagens ou climatização dramática da BD".

A adaptação ocupou-o "durante um ano e meio" tendo sido as principais dificuldades "fazer a transposição para BD sem truncar ou tirar a contundência da obra original. Fiquei fascinado com a forma como Eça retrata os dilemas da burguesia e procurei imprimir o seu sarcasmo subtil nas sequências em quadradinhos".

Para "os textos usei um misto de coloquialidade e erudição para facilitar a leitura sem perder o tom clássico da obra". Como curiosidade refere que "no Brasil utilizamos exageradamente o gerúndio e foi divertido escrever sem o utilizar uma só vez. Também me deu bastante trabalho tentar manter o texto o mais longe possível de regionalismos. Não sei se consegui, mas a intenção é que ninguém em Portugal sinta ler um texto em "brasileiro", assim como no Brasil não se perceba demais o "sotaque" português".

"Não senti qualquer dificuldade em combinar o meu traço humorístico com o estilo de Eça, pois o primeiro impacto que "A Relíquia" me causou foi o seu agudo e embutido sentido de humor. A cada cena que lia, não me cansei de exclamar "O Eça é um canalha!". No bom sentido é claro!", exclama Marcatti. "O modo como Eça constrói e lapida as personagens é exactamente o que sonho conseguir. A profundidade das tramas e a subtileza de seu sarcasmo foram extremamente inspiradores". De tal forma, que não hesita em afirmar que, com esta experiência, "ganhei o equivalente a 100 anos de estudo na construção de um argumento e no aprofundamento das personagens. E, principalmente, como ser contundente sem a necessidade de ser explícito".

Com esta adaptação pretendeu "suscitar a curiosidade dos leitores de quadradinhos pela obra mãe e manter a porta aberta para que outras adaptações. A "minha" Relíquia não se propõe substituir a obra do Eça. Recusei a fidelidade textual para ser fiel à minha impressão do original. Este é o meu Eça de Queiroz, como o senti e interpretei!".

Nos últimos tempos, depois de Laílson Cavalcanti de Holanda (que esteve no recente Festival da Amadora) e Fido Nesti terem apresentado versões pessoais de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, esta é a terceira vez que um clássico da literatura portuguesa é adaptado em BD no Brasil.

Francisco A. Marcatti Jr. nasceu em São Paulo, no Brasil, a 16 de Junho de 1962. Desde cedo apaixonado pela banda desenhada, com o incentivo da mãe, publicou pela primeira vez aos 15 anos. Em 1980 comprou uma impressora off-set de mesa, começando a publicar os seus trabalhos e de outros autores, que vendia às portas de cinemas, teatros e bares.Até hoje, criou e desenhou, mais de 1100 páginas de histórias aos quadradinhos, marcadas pelo seu traço humorista expressivo e detalhado e pelo conteúdo fortemente escatológico.Foi colaborador das revistas "Chiclete com Banana" e "Circo", desenha capas de discos e as suas criações mais conhecidas são Fráuzio, Tralha e Glaucomix, e o seu livro mais recente é "Mariposa".É o mais importante autor de BD underground do Brasil.

Nome Francisco A. Marcatti Jr.
Idade 44 anos
Profissão Desenhador

F.Cleto e Pina - jn.sapo.pt