terça-feira, 2 de Janeiro de 2007 4:19
by
Sergei
BD em 2006: o fim da BD nos quiosques?
Falar em crise a propósito do mercado da Banda Desenhada em Portugal já não é propriamente novidade. Depois do “boom” de 2002 e 2003, em que editoras como a Asa, Book Tree e Witloof, procuraram ocupar o espaço deixado vago pela crise da Meribérica, a tendência tem sido de queda constante, ano após ano. E se a Asa substituiu a Meribérica como a principal editora de Banda Desenhada franco-belga, editoras como a Witllof, Polvo e Book Tree, ou desapareceram, ou reduziram a sua actividade a um nível meramente residual.
Mas o facto mais marcante da actividade editorial no campo da BD em 2006 foi o quase desaparecimento da Banda Desenhada dos quiosques nacionais. Se a Devir acabou com as suas revistas da Marvel e a Edimpresa, que edita a Disney em Portugal, cancelou quase todas as suas revistas (com excepção da série “Witch”), a presença da Banda Desenhada nos quiosques resume-se agora quase só às importações da Mythos que, com o fim das séries “Dylan Dog”, “Martin Mystére” e “Dampyr” e a recusa da distribuidora em distribuir a série “Júlia”, se limita praticamente aos títulos protagonizados pelo cowboy “Tex”...
A explicação para esta situação é relativamente simples. Repletos de DVDs e outras promoções com preço de capa mais elevado e maior margem de lucro, os quiosques têm cada vez menos espaço para a BD, o que se reflecte negativamente nas vendas.
Obrigadas a imprimir grandes tiragens para conseguirem uma distribuição com um mínimo de visibilidade a nível nacional, as editoras vêm essas quebras das vendas tornar quase impossível rentabilizar os títulos que produzem. Claro que ainda há excepções, como a série “Lucky Luke” lançada com o jornal “Público” que foi um sucesso de vendas. Mas para esse sucesso muito contribuiu a forma como o jornal publicitou a colecção, ajudando à sua descoberta pelos potenciais interessados.
Mas fora dos quiosques há sinais que permitem algum optimismo, desde a continuação de um projecto como o “BD Jornal”, ou o sucesso de apostas na divulgação dos clássicos em edições cuidadas, como é o caso do “Príncipe Valente” de Harold Foster nos Livros de Papel, ou dos “Peanuts” de Charles Schulz na Afrontamento, ou aposta da Gradiva em outros tipos de BD para além das tiras cómicas, com o lançamento da série “Largo Winch” e de alguns trabalhos menores do grande Will Eisner.
E se a Devir acordou da sua recente letargia a tempo de lançar um punhado de novidades durante o último Festival da Amadora, com destaque para dois títulos assinados por Neil Gaiman (“Sandman” e “Orquídea Negra”) e para o novo projecto de José Carlos Fernandes, a série “Black Box Stories”, a Asa e a Vitamina BD prosseguiram com o seu ritmo de publicação habitual.
E a Editora de Pedro Silva viu mesmo nascer uma irmã gémea na nova BdMania Editora, que se estreou com dois títulos da Marvel e promete para 2007 a divertida série “Groo” de Sérgio Aragonês, entre outras coisas.
Mas a BDMania não é a única Livraria a dar origem a uma nova editora, pois também a Kingpin of Comics lançou dois títulos de autores portugueses, numa modesta tiragem de 200 exemplares, os mesmos que a Rui Brito Edições, que prossegue o trabalho das Edições Polvo, imprimiu das suas novidades. O novo sistema “print on demand” que possibilita tiragens tão reduzidas a preços competitivos, parece ser a solução ideal para as pequenas editoras como estas, ou para a El Pep, cujo mais recente título, “Fato de Macaco”, teve uma tiragem de apenas 100 exemplares, destinados só a livrarias especializadas e à FNAC.
Mas mesmo com a diminuição generalizada das tiragens, ainda há espaço para best sellers, como a adaptação de Paul Karasik e David Mazzucchelli da “Cidade de Vidro”, de Paul Auster, ou “Salazar” de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (que escolhi para ilustrar este artigo), ambos já em 2ª edição. Para além da qualidade intrínseca destes dois títulos, ao seu sucesso comercial não deve ter sido alheio o facto de terem conseguido captar um público mais vasto do que os tradicionais leitores de BD. E eu não tenho grandes dúvidas que a saída da crise actual passa pela conquista de novos públicos nas livrarias.
João Miguel Lameiras - www.asbeiras.pt