terça-feira, 2 de Janeiro de 2007 4:24
by
Sergei
Léo, o Miudo Surdo
Aventuras contadas por uma criança feliz, em Banda Desenhada
Léo, o herói do livro, é um petiz aventureiro que resolve as suas dificuldades quotidianas com humor e mostra que o melhor remédio para a surdez é sorrir dela! Recorda-nos que o humor não tem língua e serve de alerta para a inadaptação e a ignorância da sociedade.
«Léo, o *** Surdo» é um álbum de banda desenhada único no género em Portugal, traduzido pela Surd’Universo –, da autoria de Yves Lapalu, que dá a conhecer com uma terna ironia a vida real de uma criança surda – experiência que ele próprio viveu. Embora de forma bastante reduzida, Léo dá uma imagem completa da vida de um surdo, sem nunca provocar pena ou raiva no leitor, mesmo se alguns dos nervos do Léo correspondam a uma revolta escondida…. Não contra a surdez, pois não há nada que alguém possa fazer, mas contra a inadaptação e uma certa ignorância da sociedade, que desconsidera o facto de o surdo até procurar tirar partido da surdez.
Isolamento
Vivendo situações simples do quotidiano familiar, de entretenimento e lazer, por exemplo, Léo alerta para o isolamento provocado pela ausência do ruído a que está sujeito e mostra como andar de metro pode tornar-se perigoso, praticar desporto muito pouco saudável, ver televisão um pequeno drama ou acordar uma tarefa duplamente árdua! Neste contexto, a Internet aparece como uma revolução para os surdos, equivalente à invenção do telefone para os ouvintes! Com a sofisticação dos programas de chat e a banalização da escrita em teclado, esta forma de comunicação já é cada vez mais rápida, comum, barata e até preferida pelos ouvintes.
“Estipulámos como objectivo a venda de 500 exemplares, por forma a assegurar o pagamento em Janeiro do empréstimo feito ao banco”, confessa Rui Pinheiro. A expectativa em torno deste projecto é grande, pois sendo banda desenhada, “destina-se a qualquer público, desde crianças a idosos, desde leitores assíduos a esporádicos, desde surdos a ouvintes! Logo, o mercado potencial é toda a gente”. E partilha um desejo: “gostaríamos muito que outras livrarias vendessem, em especial a FNAC que também é francesa (tal como o original da obra)”!
Comunidade surda
Estima-se que a população surda em Portugal conta actualmente com 10 a 15 mil surdos profundos e 100 a 130 mil deficientes auditivos (com surdez leve a moderada), no entanto, desconhecem-se os números ao certo. Segundo os Censos de 2001, a população surda representa 0,8 por cento da população portuguesa, o que dá umas 80 mil pessoas –sem incluir os milhares de idosos que ouvem mal mas não se assumem surdos.
Na prática, entre a comunidade surda em geral há noções um pouco difíceis de “quantifica”. A noção de pessoa surda dentro da comunidade surda está mais perto de ter uma conotação étnica do que de deficiência. Do tipo: eu sou surdo (como diria: eu sou português) e não deficiente auditivo. Isto varia de pessoa para pessoa e da identidade que cada um tem de si mesmo. As pessoas surdas em geral acabam por se concentrar nas associações de surdos e criam uma cultura própria: teatro de surdos, passeios de surdos, a língua gestual – o seu estudo, desenvolvimento, anedotas que só têm graça nesta língua.
O próprio Léo, por ter sido desenhado por um surdo, traduzido pela Surd’Universo que é uma empresa de surdos, acaba por ser mais um produto surdo.
Fonte: www.oprimeirodejaneiro.pt