"Vou criar o António Alfacinha"

Maurício de Sousa, que completou 71 anos em Lisboa, tem dez filhos, 11 netos e um bisneto Maurício de Sousa, desenhador, pai dos quadradinhos da ‘Mônica’, revela que o verdadeiro coelhinho da filha que inspirou a história não era azul e que vai criar um António Alfacinha, lisboeta, para aumentar a ‘Turma’. Além da ‘dentuça’, as suas histórias já venderam mais de mil milhões de livrinhos e vêm aí mais personagens.

Correio da Manhã – Parou a parceria com a editora Globo (que distribuía os quadradinhos para Portugal)?

Maurício de Sousa – Parei. Havia falta de interesse da Globo no negócio. Agora estou com a Panini, uma multinacional com interesses na Europa e em Portugal. Vamos relançar em força todos os nossos produtos já a partir de Janeiro.

– O que se passou?

– Não sei. Eles dizem que é apenas um momento e que iam fazer, mas não fizeram nada. É já um longo sono. Estavam a distribuir mal já há alguns anos e, de Junho para cá, interromperam.

– As suas personagens estavam a ser maltratadas?

– Coitadas! Não posso permitir que deixem de ter os seus amiguinhos portugueses. Até para poder criar uma personagem nova – que faz tempo que penso nisso – que é o António Alfacinha.

– Um lisboeta?

– É. Vai falar com o sotaque bem português com ‘A Turma da Mônica’ e provocar algumas confusões, até pelos sentidos distintos das mesmas palavras. Vai ser bom para as crianças saberem como se fala em Portugal e no Brasil.

– Os brasileiros fazem muitas piadas sobre os portugueses e até nos chamam ‘padeiros’. Será que vai ter sucesso?

– Vamos fazer o quê se, na realidade, as melhores padarias são portuguesas? (risos) Tenho muitos amigos portugueses.

– E como surgiu, no jornal ‘Folha de São Paulo’, a oportunidade de estrear o Bidu?

– Em 1959, entrei no ‘Folha’ para fazer reportagem policial, notícias sobre crimes. Não era o que queria. Mas era ali que havia uma vaga enquanto planeava a forma de entrar nos quadradinhos.

– Quanto tempo demorou?

– Cinco ou seis anos. Foi bom. Era jovem e era como se estivesse a fazer cinema. Até me fantasiava, vestia-me como repórter de filme americano, de chapéu, capa... Era como se fosse um detective.

– Como descobriram que tinha jeito para o traço?

– Eu ilustrava os artigos sobre crimes, quando não conseguia boas fotos. E começaram a perceber que também desenhava. Então, quando escrevi a primeira história e mostrei, deram-me oportunidade de publicar tiras sobre o Bidu, baseado num cãozinho que tinha em criança.

– Depois do Bidu, o Franjinha

– Sim, era o dono. Depois saiu o Cebolinha, baseado num menino que conheci; o Cascão, a Mônica – ganhou espaço e ficou a mais poderosa – e todos os outros...

– Todos inspirados em pessoas que conhece e nos seus filhos?

– Sim. Construo melhor características psicológicas. Assim, a preocupação é só arranjar um tema para a história.

– Vêm aí personagens novos?

– Sim, estava cuidando de outras personagens com alguma deficiência, ou melhor, eficiência. Depois do Ronaldinho (inspirado no futebolista Ronaldinho Gaúcho, criado em 2005, no Brasil) há o Luca, numa cadeira de rodas, e a Dorinha, cega. E vai sair uma família de negros, depois entra o Marcelinho (inspirado no filho de oito anos, Marcelo) e, nas histórias do Chico Bento, uma menina com síndrome de Down.

– Porque foi a Mônica a mais bem sucedida?

– Porque é mulher. As mulheres conquistam mais. (risos)

– A sua filha era mesmo assim: dentuça, agarrada ao coelhinho?

– Sim, ela só não tem mais o coelhinho que era amarelo e não azul. Mas guarda o resto dele

– Porque não envelhece as personagens?

– Se as personagens envelhecerem com você, você envelhece com elas. É como com o Pequeno Príncipe: fica-se preso a quem nos conquista naquele momento mágico. É uma máquina do tempo. O espírito não envelhece.

"LULA E ALCKMIN DÃO BOAS CARICATURAS"

CM – Como reage aos ‘cartoons’ polémicos feitos ao Maomé?

M.S. – Não se pode negar que há por lá algum radicalismo. Mas o autor deve entender que tem uma responsabilidade de não agredir o leitor.

– É católico? Fica zangado com uma caricatura ao Papa?

– Lógico. É chocante! Respeito, mas não acho bem.

– E ‘cartoons’ políticos?

– Aí é outra coisa. Alguns políticos merecem caricatura.

– O Lula e o Alkmin?

– Sem dúvida, dão caricaturas boas. E há coisas muito criativas, a favor ou contra.

– Não vota (hoje) na 2.ª volta das Eleições Presidenciais no Brasil. Onde poria a cruz?

– Em cima da minha cabeça (risos). Está muito difícil de a colocar no lugar certo...

– Não acredita que um dos dois candidatos possa levar o Brasil para a frente?

– O país não está mal. O pessoal do Alkmin não é despreparado. Qualquer um dos lados vai continuar com o Brasil em desenvolvimento. Mas cada um tem o seu método.

– Em quem votou antes?

– No Lula. É meu amigo pessoal. Conheço-o há tempos. Mas não gosto das coisas que aconteceram com o partido, é tudo muito estranho, estou desiludido...

– O ‘mensalão’, os escândalos. Acha que o Lula sabia?

– É um grande mistério. Em conversa com ele, ele diz-me que também está muito desagradado com isso.

PERFIL

Nasceu em Santa Isabel e vive em São Paulo desde os 18 anos. Filho de poetas, começou no jornal ‘Folha de São Paulo’ como repórter policial. Em 1959, saiu a primeira tira do Bidu. A partir daí, já vendeu mais de mil milhões de histórias aos quadradinhos da Mónica, Magali, Cascão, Chico Bento...

Em ruptura com a editora Globo, mudou-se para a Panini, através da qual voltará a Portugal em 2007 também com o novo António Alfacinha. Tem um parque temático da Mônica em São Paulo, mas os de Curitiba e do Rio de Janeiro fecharam. Trabalhou para o Governo brasileiro em campanhas institucionais e projectos sociais, é amigo de Lula, mas diz nunca ter dependido do Governo. Tem dez filhos, onze netos e um bisneto. Fez 71 anos na sexta-feira, em Lisboa.

Sofia Canelas de Castro - Correio da Manhã
Foto: Sérgio Lemos