Em S. João da Madeira, na cidade onde existe a única fábrica de lápis portuguesa, vai ser inaugurada, no próximo dia 17, sexta-feira, pelas 19 horas, a exposição “O Sorriso do Lápis”, que reúne um conjunto de “cartoons” do arquitecto Ferreira dos Santos.

Este autor, premiado internacionalmente, nasceu em Cucujães e desde 1970 que tem publicado os seus trabalhos dedicados, muito especialmente ao Urbanismo e ao Ambiente, na comunicação social portuguesa e estrangeira.
Releve-se o facto do nosso jornal ter acompanhado, com muita proximidade, a carreira de Ferreira dos Santos, já que O Regional foi um dos primeiros jornais a publicar, com regularidade, os seus muito apreciados “cartoons”, nas duas últimas duas décadas. As suas criações foram sempre e são de grande actualidade, às vezes polémicas, outras recolhendo o aplauso total, mas incessantemente humorísticas e adequadas ao tempo e à circunstância focada.
A exposição vai estar patente nos Paços da Cultura, em S. João da Madeira, é organizada pela Câmara Municipal e tem o apoio da fábrica de lápis Viarco.
O texto do catálogo da exposição, que a seguir transcrevemos, de autoria do arquitecto José Manuel Bastos, faz o enquadramento do autor e da sua obra, cuja vertente urbanística e ambiental é patente nos vinte e um “cartoons” expostos.


O SORRISO DO LÁPIS
 
Iniciou-se no urbanismo, em 1975, pela mão do professor Manuel da Costa Lobo e de Percy Johnson-Marschall, no Plano da Região do Porto, mas desde que os seus “cartoons” começaram a ser publicados e a sair da esfera íntima do seu estirador de arquitecto atento, reflexivo e interventor, que Ferreira dos Santos granjeou, facilmente, um lugar destacado entre os melhores “cartoonistas” e caricaturistas contemporâneos.
Da divulgação, pelo Instituto Nacional do Ambiente, das suas notáveis “Seis Urbanovisões”, em 1988, ou da criação gráfica na Comissão de Coordenação da Região do Norte, ou na Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território, até à sua passagem pela Voz Portucalense, Público, A Razão, Fiel Inimigo, Jornal das Beiras, O Jogo, O Regional e Diário de Notícias, vai um percurso de grande fulgor artístico, à margem da torrente do conformismo, avesso às rotinas esclerosadas e questionador impenitente do politicamente correcto, com uma visão crítica e caricatural das transformações do território e da sociedade.
O “sorriso do seu lápis” - era assim que Fernando Pessoa se referia às sátiras de Almada Negreiros - é contagiante e, se na sua obra perpassa uma consciência ética, uma atitude cívica e uma brisa irónica sobre o urbanismo (ou falta dele), é no humor, ora divertido, ora corrosivo, que Ferreira dos Santos centra o seu poder criativo, sempre muito ligado ao forte sentido humanista que tão bem cultiva.
Ancorado a um grafismo seguro e a uma expressão plástica consistente, o humor que produz é tão brilhante na imagem como ao nível do texto, resultando uma equilibrada comicidade, o que nem sempre é conseguido pelos maiores “cartoonistas”. Pode-se mesmo dizer que o melhor do seu talento reside nesse equilíbrio, onde a representação humorística e gráfica do diálogo e o trocadilho inteligente, conferem uma qualidade que não se confina apenas ao campo humorístico, mas, extravasando-o, consequentemente, formula uma mensagem construtiva ou uma crítica feroz aos costumes, abalando muitas das vezes as consciências mais insensíveis aos problemas e aos tiques da sociedade de hoje.
 
Herdeiro da tradição sarcástica de Rafael Bordalo Pinheiro, de Stuart Carvalhais, ou de Sam, mais do que colocar “o dedo na ferida” – título de um dos seus livros - Ferreira dos Santos usa o lápis como se de um bisturi se tratasse, em operação de minuciosa crítica social. Ao arrepio de uma visão estabelecida, como que nos lavando o olhar, Ferreira dos Santos oferece-nos cenários de algo que nos toca, mas que por vezes teimamos em não querer ver, ao nível dos valores, de um sítio, da terra, do país, do mundo.
Esta exposição, que reúne vinte e um “cartoons”, à volta do planeamento urbano e seus desequilíbrios, convida a (re)ver uma obra estimável, a merecer sempre a sua divulgação, como já aconteceu em várias cidades portuguesas, mas também em longínquas paragens, como no Brasil, Croácia, Irão, Rússia, Eslováquia, Turquia, Japão, Dinamarca, Itália, Reino Unido, Grécia, França e Espanha. É neste país que detém o título de “Professor Honorífico del Humor” pela Universidade de Alcalá de Henares, de Madrid.
As preocupações urbanísticas e ambientais dos “cartoons” de Ferreira dos Santos e a sua capacidade artística de estigmatizar a mediocridade, a demagogia, a prepotência, o arrivismo e as misérias urbanas do nosso tempo, fazem com que não se possa dispensar esta arte maior de nos fazer rir, às vezes também, dramaticamente, de nós próprios.

José Manuel Bastos - www.oregional.pt

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