Roubando cana
Uma vez, eu e um amigo meu fomos roubar cana de um senhor que morava próximo a um destes córregos que fica dentro da cidade. O canavial ficava no fundo do quintal, e o terreno era íngreme, de modo que a sua casa ficava no alto e o canavial ao fundo, próximo à margem do rio. Na casa dele tinha uma área de fundo com uma pia, e neste dia o dono estava lá lavando vasilhas... Nós entramos no quintal e fomos nos arrastando pelo canavial a fim de encontrarmos a melhor cana, daí avistamos ele na área. Não tinha como cortar a cana, pois se não ele ouviria o barulho e nos pegaria. Ficamos esperando e nada dele ir pra dentro da casa; daí vimos que tinha umas galinhas e um galo ciscando perto de nós, e o galo ficava cantando em intervalos curtos de tempo. Então tive uma ideia: cada vez que o galo cantasse eu daria uma facada na cana, e assim o barulho era disfarçado. O galo cantava e dava outra facada, fui fazendo isto até que consegui cortar o pé da cana, mas tinha um problema: não podíamos deixar a cana cair de uma vez, se não o dono nos ouviria. Então, quando cortamos totalmente o pé da cana, a seguramos e, mais uma vez, quando o galo cantava, nós tombávamos a cana pouco a pouco. Quando tombamos a cana totalmente, ainda tínhamos que cortar o topo da cana, onde ficam as folhas... e mais uma vez lá íamos nós esperar o galo cantar: ele cantava e eu dava uma facada, ele cantava e outra facada, até que cortamos tudo, e durante todo o tempo o dono não percebeu nada. Então pegamos a cana e fomos nos arrastando com ela pra ir embora, mas tinha um problema: durante todo o tempo que ficamos ali não tínhamos notado que do outro lado da rua tinha uma casa que ficava na mesma altura da casa do dono do canavial, pois o leito do rio e as duas casas faziam um V, e lá tinha um velho que estava nos observando desde o início. E quando já estávamos quase saindo do lote, o velho gritou de lá:
— Ladrão de cana, ladrão de cana, pega...
Ficamos assustados e saímos correndo, largando a cana pra trás depois de todo o trabalho que tivemos, mas ficamos de longe observando, e vimos a hora que o velho atravessou o rio e pegou a cana pra ele. Ficamos putos de raiva e fomos embora... Moral da história: "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão."
